Deus não é Supermercado!

Coop. Izaías Correia

“Pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos a repartir”. 1 Tm 6:18

O ser humano é naturalmente utilitarista e egocêntrico. Já na fase pré-operatória (dos 2 aos 7 anos de idade) a criança vive centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro, dessa forma o olhar as próprias necessidades é o comportamento mais comum no pequeno, que obviamente tem tudo em suas mãos. Mas essa prática, mesmo quando o individuo começa a conviver numa sociedade mais ampla, em muitos casos não é abandonada, e ele permanece olhando para o próprio umbigo, ano após ano, pois tal pessoa se recusa a deixar essa fase infantil e luta para manter viva a fantasia do egocentrismo.

Sim, há um utilitarismo no humano que supera o aceitável, essa mentalidade faz as pessoas perderem o senso de generosidade, de gratuidade e o que é pior, adquire uma prática de se relacionar por interesse. Usa-se as pessoas em benefício próprio, adquire-se amigos e até casamentos, buscando extrair aditamentos daquela pessoa, essa acaba sendo descartada como uma laranja já sem suco, assim que não puder mais me servir em algo.

Mas o pior de tudo é que estão fazendo o mesmo com Deus, estão buscando no Pai a solução para os seus problemas mais enredados e ou não oferecem nada em troca ou o descarta assim que a graça é alcançada. Imagine você, se entregando inteiramente a um relacionamento, doando sua vida para bem servir aquele que o procurou, mas dias depois, quando já não for útil aos propósitos daquela pessoa, ela passa e lhe cumprimentar com falta de apreço. O mundo hoje está fazendo isso com Deus, porque para alguns não bastou cometer isso aos que estão à sua volta. Deus não é Supermercado, aonde só vamos a ele quando precisamos de algo. Pelo menos em um Supermercado vamos lá, pagamos pelo produto e o levamos para casa sem sairmos de lá devedores, ao passo que ao alcançar a graça divina viramos as costas aos princípios de Deus e seguimos com nossa vida pecaminosa, tornando-se assim devedores para com o Pai.

Lembro-me de um bêbado que vinha ziguezagueando perto de um trilho de trem, cantando feliz da vida sem nenhuma preocupação, quando abruptamente seu pé enganchou por debaixo do trilho. Por mais que ele fizesse algum esforço, até pela condição deplorável em que estava, não tinha sucesso algum em tirar o pé dali. Alguns palavrões e praguejos foram gritados, enquanto puxava para um lado e para o outro… e nada! Foi quando ouviu um assovio de um trem ao longe que ele se desesperou, puxava desvairadamente o pé já dolorido, se contorcia suando frio! Olhou para todos os lados e ninguém por perto para ajudá-lo, na aflição lembrou-se de Deus:

“Oia Senhor! Eu sei que num tenho sido um bom sujeito, tô fazendo uns negócios errados aí, mas ajuda eu! Eu tô aqui desesperado, me ajuda eu a tirar o pé daqui.” Puxava e nada! E o assovio do trem ficava cada vez mais perto. “Meu Pai amado, que sempre amei com amor, me ajuda eu aqui! Olha meu pezinho aqui, tadinho de mim! Oia se o Senhor ajudar eu tirar o pé daqui eu nunca mais chamo palavrão na minha vida! Eu juro!”. Lá vinha o trem já aparecendo ao longe e nada do pé sair. “Tá bom meu Pai. Toma aí ó, minha carteira de cigarros, nunca mais eu fumo, pronto larguei o cigarro. Agora me ajuda, por favor, meu paizinho…”. O trem apitava e chegava e nada do pé do bêbado desenganchar dali. Tacou a mão no outro bolso tirou o baralho e jogou no chão dizendo: ”não jogo nunca mais, pronto! Nem gostava de jogar mesmo”. Quando o trem já estava bem perto ele fechou os olhos e num desabafo dolorido fez mais um propósito para lhe salvar a vida: “Tudo bem meu Pai, já que o Senhor insiste, toma aí meu único lazer, minha única amiga, meu refúgio desse mundo cruel”. Arrancou uma garrafinha de cachaça do bolso do paletó e a atirou ao chão. Faltando poucos metros ele se sacudiu, fez pressão no pé e quando o trem estava para lhe atingir, conseguiu saltar para o lado, se salvando finalmente! Suspirando cansado e aliviado, levantou, sacudiu a poeira, olhou pra garrafinha de cachaça e para outras coisas que jogou, deu uma olhadinha pro céu e disse: ”Tá vendo meu Pai, o Senhor não me ajudou eu tive que tirar o pé sozinho!”

É triste, mas é uma realidade muito constante, tratar tudo e todos como descartáveis, e se fraquejarmos acabamos culpando as pessoas pelos nossos problemas, quando nossa principal dificuldade na verdade não é o sofrimento, mas viver constantemente focados em nós mesmos. “Poxa meu Deus! Isso só sucedeu comigo por culpa sua, como deixou isso acontecer com seu filho? Vou à Igreja todos os domingos.” O que você tem feito para merecer sua graça? De que forma está preparado para recebê-la? Está enxergando Deus apenas como o “Solucionador dos Seus Problemas”?

Diac. Izaias Correia
Sobre Diac. Izaias Correia 3 Artigos
Diácono da Igreja Elim do Jd. CasaBlanca.

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